
Por Cheryl Dugan, Diretora para a Ásia-Pacífico e Liderança de Membros
Neste quinto domingo da Quaresma, estamos diante do túmulo de Lázaro (João 11,1-45). O ar está pesado de tristeza. As palavras de Marta são dolorosamente sinceras: “Senhor, se tivesses estado aqui…”. Mas Jesus não se apressou para resolver a situação. Ele chora. Antes do milagre, há compaixão. Antes da ordem, há um coração movido pelo amor.
A Quaresma nos convida a “retornar ao coração”. Neste Evangelho, encontramos o coração de Cristo, não distante do sofrimento, mas aberto e vulnerável. Ele se permite sentir a dor de uma família enlutada. Ele se coloca diante da realidade da morte e não desvia o olhar.
Na Dilexit Nos, temos o pedido: Que [o coração de Jesus] derrame os tesouros da sua luz e do seu amor, para que o nosso mundo […] recupere o que é mais importante e necessário: o coração. (DN 31)
Respondendo ao grito da terra com um coração atento
Responder ao clamor da terra — o Objetivo Laudato Si’ desta semana — começa aqui: com um coração que se recusa à indiferença. É o mesmo coração que Cristo nos mostra no túmulo de Lázaro: presente com tristeza, impelido a amar antes de agir. Nós também somos convidados e convidadas a responder com a mesma compaixão e atenção.
Hoje, esse apelo se faz realidade em muitos lugares pelo mundo.
Em Dupax del Norte, nas Filipinas, agricultores e comunidades indígenas enfrentam uma profunda incerteza. Suas vidas estão intrinsecamente ligadas aos rios, florestas e solo de suas terras. Quando uma empresa com conexões estrangeiras recebeu uma licença para a exploração mineral de 3.100 hectares, muitos moradores sentiram que suas vozes não eram devidamente ouvidas. Preocupados com suas terras e seu futuro, os membros da comunidade formaram uma barricada humana — um apelo para serem vistos, ouvidos e protegidos.
A situação se agravou quando um tribunal ordenou a dispersão dos manifestantes. Grupos de direitos civis relataram posteriormente que houve prisões violentas e uso excessivo da força, incluindo o destacamento de policiais fortemente armados e uma equipe da SWAT.
Em momentos como este, o Evangelho levanta uma questão profunda:
Quem está realmente ouvindo?
Quem se solidarizará com as comunidades vulneráveis e com a própria Terra?
Restaurar a vida onde quer que ela esteja amarrada
Diante do túmulo de Lázaro, Jesus não nega a realidade da morte. Ele a nomeia e chora por ela. Mas também clama para além dela: “Lázaro, vem para fora!”
Esta não é só uma história de milagre. É uma revelação de quem Deus é e de quem somos chamados e chamadas a nos tornar. O coração de Cristo não aceita a morte como palavra final. O amor caminha para a restauração. A vida é despertada, mesmo quando parece aprisionada e sepultada.
No entanto, quando Lázaro ressuscita, ele ainda está envolto em um pano mortuário. Jesus, então, se volta para a comunidade e diz: “Desatai-o e deixai-o ir.”
A ressurreição exige participação. Exige mãos dispostas a desatar o que sufoca a vida. Responder ao grito da terra, portanto, não é simplesmente opor-se ao que prejudica a criação. Trata-se de libertar a vida onde quer que ela esteja aprisionada: restaurar a confiança, fortalecer o diálogo e acompanhar as comunidades em seu discernimento. Trata-se de rejeitar o pessimismo e escolher o cuidado.
O Deus que chora é o Deus que restaura nossa casa comum
Retornar ao âmago do ser significa nos fazermos perguntas difíceis. Quando foi que me tornei insensível à perda ecológica? Quando aceitei a divisão e a injustiça como inevitáveis? Em que ponto selei a pedra porque me pareceu mais seguro abrir mão da esperança?
Cristo ainda permanece diante dos túmulos do nosso tempo: ecossistemas degradados, comunidades silenciadas, relações fragmentadas. Ele ainda chora. Mas Ele também ainda chama.
Talvez nesta Quaresma o nosso convite não seja, primeiramente, para resolver tudo, mas para escutar mais profundamente. Para deixar que a compaixão perturbe o nosso conforto. Para permitir que Cristo derrame em nosso mundo ferido “os tesouros da sua luz e do seu amor”, para que nós também possamos reencontrar nosso coração.
À medida que vamos nos aproximando da Semana Santa, lembremos: o Deus que chora é o Deus que restaura. O Deus que chama Lázaro para fora é o mesmo que sairá do túmulo. A morte não terá a última palavra.
Questão para reflexão:
Onde percebo sinais de morte na criação — e onde sou convidado ou convidada a cuidar da Vida?





