
O Movimento Laudato Si’ (MLS) chegou à COP 30 em Belém com quase uma década de experiência em negociações climáticas desde o Acordo de Paris. Mesmo para ativistas experientes, nada se comparava a ter esta cidade como ponto de encontro entre a Amazônia e o mar — um lugar repleto de vida, resiliência e sabedoria ancestral. Belém acolheu a cúpula com o coração pulsante do ecossistema mais vital do mundo, preparando o cenário para uma COP sem precedentes.
Para o MLS, essa COP carregava um eco especial.
“Esta COP foi especial por muitos motivos. Em um nível pessoal, marcou os 30 anos da minha primeira viagem ao Brasil para minha pesquisa de doutorado sobre a Economia da Comunhão. Foi aqui que me apaixonei por esta terra vasta, vibrante e generosa. Dizem que quando você passa um tempo no Brasil, volta para casa com ‘saudade’ — um anseio que se instala no coração. Isso certamente aconteceu comigo”, conta Lorna Gold.

O MLS chegou trazendo a energia espiritual da conferência Espalhando Esperança em Castel Gandolfo, onde o Papa Leão XIV tocou a geleira da Groenlândia que se derretia e abençoou o compromisso compartilhado da Igreja de evitar a catástrofe climática. Para tornar esse compromisso visível em Belém, a equipe trouxe símbolos poderosos:
- a imagem icônica do Papa tocando a geleira,
- um recipiente com a água glacial derretida e
- a seda azul de 40 metros representando o Rio da Esperança.
Apoiado por mais de cem voluntários, o MLS procurou encarnar uma mensagem que fosse ao mesmo tempo profundamente espiritual e profundamente política: a justiça climática não pode esperar.

Uma COP católica histórica
A COP 30 era há muito aguardada como uma “COP católica”, marcando dez anos desde Laudato Si’ e o Acordo de Paris. A Igreja se manifestou com uma unidade e força sem precedentes. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o CELAM, a REPAM e as conferências episcopais da Ásia e da África elaboraram uma corajosa declaração conjunta clamando por uma transição justa, o fim dos combustíveis fósseis, reparações climáticas e a rejeição de falsas soluções. Este documento, endossado por centenas de grupos católicos e religiosos — incluindo o MLS —, tornou-se a bússola moral do nosso testemunho coletivo.
Antes da COP, alguns se perguntavam se a passagem para o pontificado do Papa Leão XIV suavizaria a postura profética da Igreja. Essa dúvida se dissipou na primeira noite. Enquanto o sol se punha em Belém, o MLS uniu-se a cardeais, bispos, religiosos, religiosas e pessoas leigas do mundo inteiro em uma comovente procissão em homenagem aos mártires ambientais. Carregando a imagem da geleira, a água do degelo e o Rio da Esperança através de uma basílica repleta de nove cardeais e mais de quarenta bispos, a Igreja declarou — com sua alegre presença — que seu compromisso com a criação é mais forte do que nunca.
A espiritualidade no centro
Ao longo da COP, a espiritualidade, a cultura e os valores não foram meros detalhes — foram centrais. O MLS participou de diversas discussões sobre a crise espiritual por trás da emergência climática, a transição para o pontificado de Leão XIV e a proposta das Contribuições Determinadas pelos Povos (CDPs). Pela primeira vez em uma COP, houve a sensação de que negociadores e observadores estavam prontos para ouvir — e levar a sério — a sabedoria das comunidades religiosas.
E onde quer que o MLS fosse, o Rio da Esperança se tornava um ímã. Negociadores, ativistas, jovens, lideranças indígenas e religiosas se reuniam ao seu redor. Em um momento marcante, a equipe desenrolou o rio no corredor principal, do lado de fora da sala de negociações, durante uma entrevista ao vivo na TV. Cantos espontâneos preencheram o espaço — quase custando à equipe suas credenciais da ONU —, mas ecoando lindamente o convite do Papa Francisco na Laudato Si’: “Caminhemos cantando”.

Marchando com ativistas, gente que quer fazer a diferença
Durante a marcha global pelo clima — uma das maiores desde Glasgow em 2021 — a delegação do MLS caminhou ao lado de lideranças indígenas, padres, cardeais, irmãs religiosas, famílias e jovens ativistas. Enquanto cantos e danças ecoavam pelas ruas de Belém, a esperança tornou-se palpável, concreta, contagiante. Era a alegria que resiste ao desespero, a coragem que o Papa Francisco e o Papa Leão XIV convidam o mundo a abraçar.
Um símbolo em chamas
Poucas horas depois da saída do MLS do local, a notícia de um incêndio no recinto da COP 30 chegou. O simbolismo era difícil de ignorar. Nosso mundo está em chamas. No entanto, a mensagem aqui é que o fogo foi rapidamente extinto e a ordem, restabelecida. Que isso seja um sinal — e uma prece — de que as negociações globais também possam escolher o caminho da vida.
Para além das negociações: um resultado contraditório com sementes de esperança
Apesar da profundidade do engajamento religioso, o resultado final da COP 30 ficou muito aquém da urgência moral necessária. Para o MLS, muito do que defendemos não foi incluído no texto final. Em particular, a remoção de qualquer referência à eliminação gradual dos combustíveis fósseis deixou uma lacuna enorme na resposta global. O resultado foi, em muitos aspectos, decepcionante.
No entanto, em meio à frustração, houve avanços significativos:
1. O Mecanismo de Ação de Belém
O MLS saudou a adoção deste novo mecanismo, que oferece um potencial real para progressos em matéria de florestas, financiamento climático e transições justas. A ação e a implementação agora são essenciais.
2. Liderança da Colômbia e dos Países Baixos
O anúncio de que irão coordenar esforços conjuntos para pôr fim à expansão dos combustíveis fósseis traz novo ímpeto ao chamado global por um Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis — um movimento fundamentado na mesma clareza ética que outrora levou a Santa Sé a defender o Tratado sobre Minas Terrestres. O MLS espera sinceramente que a Santa Sé se some a este novo esforço de tratado e participe da primeira conferência intergovernamental na Colômbia em abril de 2026.
3. Contribuições Determinadas pelos Povos (CDPs)
A proposta apresentada pelo MLS avançou substancialmente. O movimento apresentou as primeiras 2.000 CDPs à Presidência da COP, mas planeja fazer muito mais em colaboração com outras religiões e instituições culturais. Os compromissos de indivíduos e instituições — muitos da Assembleia Global de Cidadãos — foram integrados ao Mecanismo de Ação de Belém. Isso inaugura uma nova era de colaboração entre comunidades religiosas e a sociedade civil global. Até a COP 31, na Turquia, o MLS pretende apresentar um roteiro católico ainda mais robusto, alinhado à Plataforma de Ação Laudato Si’.

Uma Igreja mais unida do que nunca
A mensagem do Papa Leão XIV aos delegados, proferida no Museu das Amazônias, embalada pela memória do amor do Papa Francisco pela Amazônia, tornou-se uma ponte entre pontificados. Suas observações improvisadas reafirmaram a liderança do Sul Global e a continuidade da missão profética da Igreja.
Para quem estivesse se perguntando se a Laudato Si’ iria se dissipar após o papado de Francisco, a resposta em Belém foi inequívoca:
A Laudato Si’ continua viva. Vive na Amazônia. Na juventude que exige justiça. Nos guardiões indígenas da criação. Em cada paróquia, comunidade e pessoa voluntária dedicadas à cura de nossa casa comum. Em outras palavras… criou raízes!
Levando o rio em frente
Ao olhar para o próximo ano, o Movimento MLS emerge da COP 30 mais enraizado, unido e determinado. O Rio da Esperança que fluiu por Belém agora impulsiona nossa missão global rumo à COP 31 e ao futuro.
E com a Igreja unida como nunca antes, caminhamos com confiança na promessa que está no coração da Laudato Si’: um outro caminho não só é possível, como já está começando.
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