Por Steven Fisher, Plataforma de Ação Laudato Si’ 

A poucos quarteirões da minha casa na Cidade do México, há um lugar onde as pessoas chegam carregando muitas coisas. Algumas vêm com sacolas plásticas contendo tudo o que possuem. Outras chegam com crianças inquietas, curiosas ou já cansadas de ouvir que precisam esperar. Há aquelas que chegam por causa da solidão, outras atraídas pela fome, e algumas simplesmente porque sabem que lá dentro, alguém as receberá pelo nome e se lembrará de quem são.

Este é o ritmo semanal da Comunidade de Sant’Egidio. O que se forma ali não é uma fila de atendimento, mas uma mesa. As conversas se desenvolvem lentamente. Histórias são compartilhadas sem pressa. As diferenças (de idade, história, crença ou estabilidade) não desaparecem, mas são reunidas. Não é um lugar onde alguém chega como um projeto para ser consertado. É um lugar onde as pessoas chegam sedentas, de diversas maneiras, e descobrem que não estão sozinhas.

Essa experiência me ajuda a ouvir o Evangelho da mulher samaritana de um jeito diferente.

No centro do encontro está a sede

Quando Jesus encontra a samaritana no poço, ele não a aborda como um problema a ser resolvido ou uma lição a ser ensinada. Ele a encontra como uma parceira de conversa. Ela é perspicaz, centrada e teologicamente curiosa. Faz perguntas genuínas: sobre recursos compartilhados, códigos sociais e pertencimento. Ela não é passiva. Não se limita a receber. Ela se envolve, questiona e responde.

Houve um tempo em que esta passagem foi lida sob a ótica da exposição e da correção, em vez da perspectiva do encontro. Mas o próprio Evangelho resiste a essa interpretação. Jesus não a envergonha. Ele não exige arrependimento antes de um relacionamento. Em vez disso, ele fala com ela sobre a água viva, sobre a adoração em espírito e em verdade, sobre um Deus que não está confinado aos lugares ou sistemas que a excluem.

No centro do encontro está a sede. Não um fracasso moral, mas um anseio. Não um julgamento, mas um desejo.

Cristo, Água Viva para a nossa sede mais profunda

É aqui que a Dilexit Nos nos oferece uma chave de leitura: “No Coração trespassado de Cristo estão concentradas, escritas na carne, todas as expressões de amor das Escrituras. […] o seu lado aberto é fonte de vida para o amado; é aquela fonte que sacia a sede do seu povo.” (DN 101) O coração de Cristo está aberto não apenas para perdoar, mas também para sustentar. Não só para corrigir, mas também para dar vida.

A mulher samaritana reconhece isso. Ela deixa para trás seu cântaro de água — não porque suas necessidades diárias tenham deixado de importar, mas porque algo mais profundo despertou nela. Sua sede foi nomeada sem ser diminuída. Ela se torna testemunha não por adotar uma postura moral, mas por compartilhar um encontro: “Venham e vejam”.

Honestos quanto à nossa própria sede, atentos à sede dos outros

Isso está em profunda sintonia com o Objetivo Laudato Si’ para esta semana: Resposta ao clamor dos pobres. O clamor dos pobres não é apenas uma reivindicação por recursos, nem só por acesso ao que sustenta a vida — como água, terra e lugares seguros para morar. É também um clamor por serem reconhecidos como sujeitos de suas próprias vidas: pessoas que carregam discernimento, fé e verdade. Em Sant’Egidio, os pobres não são objetos de caridade. São amigos, mestres e protagonistas da comunidade, lembrando-nos que o cuidado com as pessoas e o cuidado com a nossa casa comum são indissociáveis.

Quando nos imaginamos facilmente no lugar de Jesus, corremos o risco de perder o convite do Evangelho. A Quaresma não nos pede que nos coloquemos acima dos outros como ajudantes justos. Ela nos pede que estejamos lado a lado junto à fonte, honestos quanto à nossa própria sede, atentos à sede dos outros.

A questão para reflexão permanece suavemente no ar: A sede de quem devo guardar no meu coração esta semana? Talvez seja a sede de alguém frequentemente incompreendido. Talvez a sede de uma criança, de um vizinho, de uma comunidade sob pressão. Talvez seja a nossa própria. Junto ao poço, Jesus nos mostra que Deus já está lá — esperando, ouvindo, pronto para nos encontrar não como problemas a serem resolvidos, mas como pessoas que anseiam pela vida.