Depois de alguns dias na pequena ilha irlandesa de Inishbofin, Lorna Gold, Diretora Executiva do Movimento Laudato Si’, reflete sobre o que acontece quando nos afastamos do barulho, abrimos o nosso coração e damos espaço ao luto, à esperança e a uma conexão mais profunda diante da crise climática.
Existe algo em viajar a uma pequena ilha que nos transforma de maneiras profundas e até misteriosas. Algo que altera a nossa perspectiva sobre o nosso lugar no mundo.
Desde o momento em que você pisa no barco, percebe que é um grão de areia, um pontinho em um vasto oceano. Enquanto o vento bagunça os seus cabelos cuidadosamente arrumados, a maresia embaça os seus óculos e as ondas quebrando te jogam para o lado enquanto você tenta tirar uma selfie, você se lembra abruptamente de quem está no comando. E não é você.
Então, quando a costa acidentada aparece diante da sua vista e você vislumbra o abrigo do porto, sente uma profunda gratidão por estar em terra firme.
Inishbofin foi o cenário do Encontro sobre o Clima, um processo criativo que reuniu 60 pessoas de diferentes esferas de liderança climática. A premissa era simples: reunir pessoas envolvidas na resposta à crise climática, tirá-las dos seus ambientes habituais e levá-las de volta à natureza, criando tempo e espaço para um diálogo genuíno entre diferentes perspectivas.
Artistas e músicos, cientistas e formuladores de políticas públicas, políticos e pessoas de fé, donas de casa, jovens e idosos: a riqueza da experiência reunida surgiu espontaneamente da diversidade dos presentes. As pessoas eram convidadas a deixar seu status do lado de fora e entrar com a totalidade do seu ser.
Seguindo antigas tradições de encontros comunitários presentes em diversas culturas (o meitheal irlandês, o diálogo Talanoa no Pacífico e o espírito africano do ubuntu), todos chegam ao espaço em igualdade de condições. Cada pessoa traz consigo a complexidade da sua identidade, mas também a vulnerabilidade compartilhada de ser um humano entre outros seres humanos. Alguém nos lembrou da antiga “quinta província” irlandesa, um lugar onde as lideranças podiam se reunir em confiança. Um espaço seguro. Um espaço sagrado.
Os meus dias em Inishbofin foram pontuados por conversas profundas e momentos inesperados de insight.
Começávamos cada dia com uma meditação simples na igreja local. Juntos, cantávamos “Oscail mo chrol” (“Abre o Meu Coração” em irlandês), um cântico que se tornou um tema recorrente durante a nossa estadia na ilha. Ele expressava um desejo compartilhado de estarmos abertos e presentes, de ouvir profundamente e permanecer atentos não apenas às palavras e às evidências, mas também aos sentimentos, às intuições e ao que pudesse vir à tona entre nós.
A natureza selvagem da ilha acompanhou tudo o que fizemos. Enquanto pedalávamos para lá e para cá ao longo da costa acidentada entre os locais dos eventos, a paisagem nos lembrava constantemente da beleza da natureza, do seu poder, da sua história ancestral e de tudo o que agora está ameaçado.
Passávamos horas discutindo política, ciência e estratégias de comunicação, para depois sairmos e contemplarmos um céu estrelado com a Via Láctea acima de nós e o luar dançando sobre a água. Falávamos sobre inteligência artificial e seu potencial para ameaçar o nosso mundo, e então saíamos para testemunhar o pôr do sol num magnífico espetáculo de luz, como acontece desde tempos imemoriais, muito antes de os seres humanos existirem.
O litoral de Inishbofin já carrega as cicatrizes de tempestades cada vez mais severas. Pudemos constatar isso nas obras de reconstrução do quebra-mar antes da chegada do inverno. A ilha parecia remota, mas a crise se fazia sentir assustadoramente próxima.
Em determinado momento, a urgência e a magnitude das crises que enfrentamos se tornaram avassaladoras para mim.
Durante uma conversa noturna em um bar, perguntamos qual das ameaças enfrentadas atualmente pela humanidade poderia nos atingir primeiro: a guerra se espalhando pela Europa, o desenvolvimento descontrolado da inteligência artificial ou o nosso fracasso coletivo em conter as emissões produzidas pelos combustíveis fósseis. A dura verdade dos especialistas foi um golpe pesado que nos atingiu.
Não dormi muito naquela noite. O nosso pequeno encontro parecia de alguma forma suspenso no tempo, como um copo frágil tentando conter as lágrimas do mundo. Um copo prestes a se quebrar.
Na manhã seguinte, entrei na reunião com o coração pesado. Cantamos canções sobre caminhos ancestrais e relatamos as nossas conversas profundas, mas, na verdade, eu queria voltar para aqueles lugares selvagens e chorar.
Me vi pegando o microfone e a sinceridade tomou conta de mim. Simplesmente disse que estava com medo, que o meu coração estava partido e que eu já não tinha certeza do que poderíamos fazer para mudar o rumo que estávamos tomando.
Chorei. Outras pessoas também choraram. Ninguém pediu permissão.
Naquele momento, eu me senti plenamente humana ao lado de outros seres humanos numa pequena ilha no Atlântico Norte, todos nós tentando, cada um à sua maneira, emendar as coisas. Na minha fragilidade e vulnerabilidade, ofereci o meu coração aberto e convidei outras pessoas a fazerem o mesmo.
Juntos, lamentamos tudo aquilo que tememos estar escapando ao nosso controle. Reconhecemos que talvez não possamos consertar tudo. No entanto, também reconhecemos que ainda há muito para viver, mesmo em meio à dor da perda.
A própria perda contém uma estranha ambiguidade, como nos lembrou um belo poema compartilhado durante o encontro. Chegar perto da morte pode nos despertar para o que significa estar verdadeiramente vivo.
Ao longo do nosso tempo juntos, exploramos a interação entre fé, espiritualidade, ciência e vida pública, e os significados mais profundos que buscamos expressar através do nosso trabalho. Muitas vezes a nossa identidade espiritual fica fora do local de trabalho. Privatizamos a espiritualidade, em parte por medo de que ela possa nos dividir. Mas, ao fazer isso, as nossas conversas podem ter perdido aquilo que uma das pessoas chamou simplesmente de “alma”.
Excluímos algumas das coisas que dão o significado mais profundo à nossa vida ao mesmo tempo que tentamos resolver uma crise existencial sem levar em conta o propósito e o sentido maior da vida. Sem essa base mais profunda, fica difícil encontrar força — ou mesmo motivo — para continuar lutando pelo bem comum.
A maior revelação para mim durante aqueles dias foi a sensação de que uma porta poderia estar se abrindo: uma porta através da qual a fé, a espiritualidade e as artes poderiam retornar de forma mais plena ao movimento climático.
Não se trata de substituir a ciência, as políticas públicas ou a ação política. Todas são indispensáveis. Trata-se de reconhecer que as evidências e as políticas públicas, por si só, não conseguem lidar com todo o peso desta crise. À medida que a emergência climática se agrava, também precisamos de significado, de comunidade e rituais para nos ajudarem a enfrentar o luto, manter a coragem e seguir em frente em tempos difíceis.
A fé e a espiritualidade podem ser um bálsamo para uma alma ferida, uma fonte de alegria diante da adversidade. Elas também podem reacender a chama do nosso coração para enfrentar a injustiça.
Em pé na pequena igreja da ilha com amigos muçulmanos, judeus e cristãos, enquanto o vento uivava lá fora no último dia do nosso Encontro, as nossas diferenças pareceram insignificantes. O vento falava. Compartilhamos as águas abençoadas e nos comprometemos a fazer parte de um rio de esperança.
Senti que isso foi especialmente significativo durante este Tempo da Criação, quando muitas comunidades pelo mundo estão refletindo sobre o tema Água Viva. Em Inishbofin, a água nunca foi só uma metáfora: ela nos cercava, nos carregava, nos desinstalava e nos lembrava da nossa vulnerabilidade. Estava nas ondas que nos trouxeram à ilha, nas tempestades que remodelavam o seu litoral, na água sagrada que compartilhamos e na imagem de um rio fortalecido por seus diversos afluentes.
Talvez esse seja o significado de transformar-se num rio de esperança. Nenhum de nós é o rio inteiro. Somos pequenos riachos, vindos de lugares diferentes, carregando experiências, convicções e dons distintos. Mas quando nos permitimos fluir uns em direção aos outros, algo maior começa a se mover.
Ao nos voltarmos novamente contra o vento, sabíamos que poderíamos enfrentar águas turbulentas na viagem de volta para casa. Mas partimos com determinação renovada.
Caminhamos sobre um solo ancestral. Somos carregados por águas vivas. E nos momentos em que os milagres são mais necessários, podemos beber de fontes profundas. Elas ainda estão lá: basta abrirmos o nosso coração, como fizemos em Inishbofin.








