
Lago glacial Chola nos Himalaias do Nepal, a aproximadamente 4.600 metros do nível do mar, sob o maciço montanhoso de Cholatse-Taboche. © Vyacheslav Argenberg / Wikimedia Commons
O desastre que se revela nos Himalaias não é unicamente uma tragédia. Ele confronta o mundo com uma das injustiças fundamentais da crise climática: as pessoas que menos contribuíram para ela são frequentemente as que mais sofrem. Para nós, é um chamado à escuta. Na Laudato Si’, o Papa Francisco nos lembra que não podemos responder adequadamente à crise ecológica sem ouvir “tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (Laudato Si’, 49).
Enquanto as equipes de resgate continuam respondendo à devastação causada pelas inundações catastróficas que afetam o Nepal e o Tibete, lamentamos as vidas perdidas, oramos pelas pessoas que ainda estão desaparecidas e nos solidarizamos com as famílias cujas casas, meios de subsistência e comunidades foram chacoalhados em questão de instantes. Mas para além das nossas orações, há uma pergunta que o mundo não pode evitar: Quem está pagando o preço da crise climática e quem é responsável por criá-la?
O Nepal nos dá uma resposta dolorosa.
0,1%: um número que o mundo deve lembrar
De acordo com o Relatório sobre Clima e Desenvolvimento do Grupo do Banco Mundial para o Nepal, o país é responsável por aproximadamente 0,1% do total das emissões globais de gases de efeito estufa. O Banco Mundial descreve o Nepal como um “contribuinte insignificante para as mudanças climáticas”. Os dados mais recentes do Banco Mundial também mostram que as emissões de dióxido de carbono do Nepal equivalem a aproximadamente 0,5 toneladas de CO₂ por pessoa por ano.
No entanto, o Nepal se encontra numa das linhas de frente de um clima que muda de forma acelerada. Essa contradição está no cerne da injustiça climática: o Nepal praticamente não contribuiu em nada para a crise climática global, mas seu povo está sendo obrigado a conviver com algumas das suas consequências mais perigosas.
Um Himalaia em transformação
Os cientistas ainda estão investigando a sequência precisa de eventos por trás desse desastre. Portanto, devemos ter cuidado para não afirmar que a mudança climática, por si só, causou uma determinada inundação, deslizamento de terra ou colapso de geleira. Mas é cada vez mais difícil ignorar o alcance mais amplo da mudança nos Himalaias. O Banco Mundial alerta que o aumento das temperaturas, o derretimento das geleiras e a intensificação das chuvas deverão agravar os riscos climáticos no Nepal, particularmente as inundações e os deslizamentos de terra.
A geografia do Nepal torna tudo isso particularmente perigoso. As comunidades vivem sob geleiras, ao lado de rios caudalosos e ao longo de vales montanhosos íngremes. Com o aumento das temperaturas, as geleiras recuam e os ambientes de alta montanha se transformam. Os sistemas hídricos ficam menos previsíveis, enquanto as inundações, os deslizamentos de terra e os transbordamentos de lagos glaciais podem ameaçar as comunidades rio abaixo.
A crise climática, portanto, não é uma projeção distante para o Nepal, mas já está se tornando parte da realidade vivida pelas pessoas.
Quem menos contribuiu sofre primeiro
Assim se manifesta a injustiça climática. Trata-se de um país responsável por apenas 0,1% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas que está sendo forçado a investir recursos preciosos na adaptação a uma crise criada, em sua grande maioria, fora das suas fronteiras.
São famílias que perdem suas casas e meios de subsistência devido a riscos climáticos cada vez mais perigosos. Agricultores que enfrentam mudanças nas condições de chuva, inundações, secas e ameaças à segurança alimentar. Comunidades de montanha que observam as geleiras e os sistemas hídricos que criaram suas paisagens por gerações passarem por uma profunda transformação. E as consequências econômicas podem ser enormes.
O Banco Mundial estima que, sem uma maior resiliência climática, os impactos climáticos poderão reduzir a economia do Nepal em pelo menos 7% até 2050 em comparação com o que aconteceria sob outras circunstâncias.
Pense no que isso significa. Um país cuja contribuição para o aquecimento global foi insignificante pode perder uma parcela significativa da sua prosperidade econômica futura por causa das suas consequências. A atmosfera não respeita fronteiras nacionais, mas a responsabilidade por esta crise não é partilhada igualmente.
A oração deve se transformar em ação
Hoje o Nepal precisa das nossas orações e de assistência humanitária. Precisa de solidariedade com os sobreviventes e com as pessoas que buscam os seus entes queridos.
Mas a nossa solidariedade não pode terminar quando este desastre desaparecer das manchetes. A justiça climática exige que a comunidade internacional, especialmente os países cuja prosperidade foi construída ao longo de décadas de elevado consumo de combustíveis fósseis, assuma uma responsabilidade maior. Isso significa:
- Reduzir as emissões mais rapidamente.
Os maiores emissores do mundo, tanto da perspectiva histórica quanto da atual, devem liderar a transição para superar os combustíveis fósseis. - Financiar a adaptação.
Países como o Nepal precisam de recursos para fortalecer sua infraestrutura, proteger suas comunidades de montanha, aprimorar seus sistemas de alerta precoce e se preparar para os riscos climáticos cada vez mais altos. - Responder a perdas e danos.
Quando comunidades são destruídas devido aos impactos climáticos que pouco contribuíram para criar, a solidariedade internacional não pode significar simplesmente oferecer-lhes mais dívidas. - Proteger os mais vulneráveis.
A política climática deve começar pela dignidade das pessoas que já estão sofrendo as consequências do aquecimento global.
E significa reconhecer um princípio fundamental: quem menos contribuiu para a crise climática não deve pagar sozinho o preço mais alto.
Do Himalaia, a Água Viva traz uma mensagem
Agora que os cristãos iniciaram o Tempo da Criação 2026 unidos pelo tema “Água Viva”, a tragédia no Himalaia confere a essas palavras uma nova urgência.
As geleiras do Himalaia alimentam rios que sustentam comunidades muito além das montanhas. Suas águas nos lembram que estamos interligados: as nossas economias, as nossas emissões e a nossa responsabilidade uns pelos outros. Hoje oramos pelo Nepal e pelo Tibete. Mas a oração precisa se transformar em ação.
Neste Tempo da Criação, vamos ouvir o grito da Terra e o grito dos pobres reduzindo a nossa dependência de combustíveis fósseis, defendendo o financiamento climático e a compensação de perdas e danos, e apoiando as comunidades na linha de frente da crise climática.
Participe do Tempo da Criação. Ore. Entre em ação. Erga a sua voz pela justiça climática. Deixe a Água Viva fluir em forma de ação.
Porque o 0,1% das emissões globais produzidas pelo Nepal nos lembram de uma verdade que não podemos ignorar: as pessoas que menos contribuíram para esta crise não devem ser aquelas que vão pagar o preço mais alto.
Entre em ação pela Criação!
Fontes: Grupo do Banco Mundial, Relatório sobre o Clima e o Desenvolvimento do Nepal (2022); Banco Mundial, Indicadores de Desenvolvimento Mundial, dados do Nepal.





